No Dia Internacional da Mulher: MULHERES POMERANAS

Por  Ednéa Harckbart*


A imagem do forno a lenha com o brote colocado cuidadosamente em cima da folha de bananeira me é familiar. É símbolo de tantas recordações da mãe, avó e tias. Enquanto o pão assava era preparada a carne de porco frita, para depois guardá-la em latas, conservada na banha durante meses.Conversa sobre assombrações; imaginação à solta, trigo, ovos, goiabada derretida para a confecção de biscoitos, o natal se aproximava. E o pinheiro, tinha que ser o mais bonito e mais verdinho, com presépio embaixo da árvore, com direito até a um lago com patinhos nadando, e a confecção da coroa do advento com as fitas e velas vermelhas, quanta riqueza de detalhes.

Decorar versinhos no dialeto pomerano e recitar, para São Nicolau trazer balas. O dialeto? Ensinado pelas mulheres. A avó se negava a aprender o português; que bom, o pouco que sei hoje foi pelas férias passadas em sua casa. A chegada da cegonha exigia imaginação, ela pescava o bebê nos lagos ou rios e fazia deslizar pela chaminé toda suja de fuligem. Quem esperava de avental aberto? A parteira. 
 
O banho com água fervida e álcool, os cuidados com os recém nascidos, contra o mal olhado? A benzedeira resolvia. Devemos entender o sincretismo existente entre o sagrado e o profano, tradições trazidas do além-mar. Entender a religiosidade popular, as raízes, suas devoções à natureza, suas divindades? Só as mulheres.

Rezas transmitidas por varias gerações, somente por mulheres, que deviam ter dotes morais, tais como virtude e honra. Tia Janeta costurava patuá para guardar no peito por baixo da blusa. O que tinha lá dentro? Só ela sabia.

À noite, todos sentados à mesa para ouvir historias dos mais velhos, sobre a segunda guerra, as perseguições sofridas também pelas mulheres que dormiam no cafezal, com os filhos, amamentando bebês; contra todas as adversidades, bichos peçonhentos, frio, chuva, elas estavam ali, organizando na cabeça a esperança através da Fé.

A imagem dos casamentos me saltava aos olhos, quantos detalhes, quanta fartura: linguiça defumada, frango ensopado, batatas cozidas, arroz doce, sopa de pêssego, bolos, biscoitos, pães, brotes, ornamentos com flores naturais, três meses de dedicação das mulheres pomeranas, para três dias de festa. Tudo feito através de mutirão pelas melhores cozinheiras, cada uma dando o melhor de si, sem nada cobrar.

O dote da noiva? Um baú, uma máquina de costura, um cobertor de pena de ganso e uma vaca leiteira.

Tudo isso faz valer a frase pomerana de Paula Gabe, Ibirubá/RS:

“A mulher pomerana trabalha o dia inteiro, mas sempre de bom humor.”
“Dai pomerisch fruug arbeit den gansa dag, awer is ümer lustig.”
 
Essa homenagem que presto hoje é especialmente às mulheres pomeranas. Essas guerreiras, que transpuseram todas as barreiras, atravessando mares, deixando famílias para trás e que tanto contribuíram para a construção do Estado do Espírito Santo. Sem deixar de mencionar os 150 anos de imigração, que os pomeranos festejam neste ano de 2009.
 
Ednea Harckbart
08/03/2009 

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*Ednéa Harckbart é jornalista, pesquisadora e escritora. Em 2006, publicou um livro sobre a imigração pomerana no Espírito Santo, intitulado “Famillientreffen: encontro de famílias”  Segundo a autora, "o principal objetivo do livro é desmistificar algumas crenças sobre a cultura pomerana. A cultura vai muito além da noiva de preto.

Os Pomeranos são acusados de se isolarem, mas foram obrigados a isso durante a Campanha Nacionalista do Governo Vargas – 1938 a 1045, duramente perseguidos por serem considerados alemães. Como conseqüência, enfrentaram a repressão ao uso da língua, fechamento de escolas, igrejas, alguns pastores foram presos, a proibição que o dialeto fosse falado em público, a pilhagem de bens materiais e a destruição das propriedades das famílias de descendentes, documentos destruídos, inscrições escritas em alemão foram apagadas nos epitáfios dos cemitérios."

Aguarde em breve mais detalhes sobre o livro "Familientreffen: encontro de Famílias".

Fonte: Ednéa Harckbart

Um comentário:

  1. Gostaria de saber mais sobre a cultura pomerana, pois estou trabalhando num projeto sobre este povo na cidade de Camaquã.
    Grata pela atenção aguardo do contato.

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