O frio tem dessas delicadezas discretas. Obriga as mãos a procurarem abrigo, aproxima corpos em torno do café recém-passado, transforma pequenas rotinas em rituais de permanência. Há algo de profundamente humano numa janela embaçada, numa manta esquecida sobre o sofá, numa conversa que se alonga porque lá fora o vento não convida ninguém à pressa.
Enquanto o verão explode em excessos — ruas fervendo, motores impacientes, suor e irritação misturados ao concreto quente — o inverno parece recolher o mundo para dentro de si. As cidades diminuem o ritmo. As pessoas falam mais perto umas das outras. Até a luz muda: torna-se oblíqua, melancólica, quase cinematográfica. O frio empresta às coisas um aspecto de memória.
Mas o inverno também carrega suas durezas. Porque a mesma geada que cobre os campos com beleza branca endurece os dedos de quem atravessa a madrugada sem teto. O mesmo vento que faz dançar as árvores castiga quem dorme sob marquises úmidas. O frio revela desigualdades com uma honestidade cruel. Ele não permite disfarces. Mostra quem possui paredes grossas, cobertores e lareiras — e quem possui apenas a noite.
É nesse instante que a poesia tropeça na realidade.
Não há romantismo possível diante de um corpo tremendo numa parada de ônibus antes do amanhecer. Nenhuma fotografia bonita de inverno suporta o peso de certas ausências humanas. O frio pode ser contemplativo para uns e brutal para outros. Democrático na temperatura, jamais no sofrimento.
Ainda assim, há algo curioso nas baixas temperaturas: elas parecem despertar gestos esquecidos. Surgem campanhas de agasalho, panelões de sopa, mãos estendidas nas esquinas. Como se o inverno, ao endurecer o ambiente, amolecesse certos corações. Talvez porque o frio lembre, de maneira inevitável, que ninguém atravessa sozinho as estações difíceis.
E o Rio Grande do Sul conhece bem essa linguagem. Conhece o vento minuano atravessando frestas antigas, o campo amanhecendo branco de geada, os dias curtos em que o sol aparece tímido entre nuvens baixas. Conhece também o peso das enchentes, das madrugadas rigorosas e das famílias que enfrentam o inverno mais com coragem do que com conforto. O frio gaúcho nunca foi apenas clima; ele é paisagem emocional.
Talvez por isso o inverno carregue essa melancolia bonita das velhas crônicas e dos filmes antigos. Ele recorda ao homem sua fragilidade. E, paradoxalmente, é dessa fragilidade que nasce certa ternura. O frio obriga as pessoas a procurarem abrigo — não apenas dentro das casas, mas umas nas outras.
Porque toda estação, no fim, revela menos sobre o tempo e mais sobre a humanidade que existe dentro dele.

.png)
Postar um comentário
0Comentários