Poesia do Tempo Frio

Geraldo Voltz Laps
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A cerração cobre as ruas como um lençol antigo

Há um silêncio particular nas manhãs frias do Rio Grande do Sul. Um silêncio que não nasce da ausência de sons, mas do modo como o mundo parece falar mais baixo. A cerração cobre as ruas como um lençol antigo, o chimarrão desenha fumaças lentas no ar, e as casas despertam devagar, como se o inverno ensinasse à vida uma forma menos apressada de existir.

O frio tem dessas delicadezas discretas. Obriga as mãos a procurarem abrigo, aproxima corpos em torno do café recém-passado, transforma pequenas rotinas em rituais de permanência. Há algo de profundamente humano numa janela embaçada, numa manta esquecida sobre o sofá, numa conversa que se alonga porque lá fora o vento não convida ninguém à pressa.


Enquanto o verão explode em excessos — ruas fervendo, motores impacientes, suor e irritação misturados ao concreto quente — o inverno parece recolher o mundo para dentro de si. As cidades diminuem o ritmo. As pessoas falam mais perto umas das outras. Até a luz muda: torna-se oblíqua, melancólica, quase cinematográfica. O frio empresta às coisas um aspecto de memória.


Mas o inverno também carrega suas durezas. Porque a mesma geada que cobre os campos com beleza branca endurece os dedos de quem atravessa a madrugada sem teto. O mesmo vento que faz dançar as árvores castiga quem dorme sob marquises úmidas. O frio revela desigualdades com uma honestidade cruel. Ele não permite disfarces. Mostra quem possui paredes grossas, cobertores e lareiras — e quem possui apenas a noite.


É nesse instante que a poesia tropeça na realidade.


Não há romantismo possível diante de um corpo tremendo numa parada de ônibus antes do amanhecer. Nenhuma fotografia bonita de inverno suporta o peso de certas ausências humanas. O frio pode ser contemplativo para uns e brutal para outros. Democrático na temperatura, jamais no sofrimento.


Ainda assim, há algo curioso nas baixas temperaturas: elas parecem despertar gestos esquecidos. Surgem campanhas de agasalho, panelões de sopa, mãos estendidas nas esquinas. Como se o inverno, ao endurecer o ambiente, amolecesse certos corações. Talvez porque o frio lembre, de maneira inevitável, que ninguém atravessa sozinho as estações difíceis.


E o Rio Grande do Sul conhece bem essa linguagem. Conhece o vento minuano atravessando frestas antigas, o campo amanhecendo branco de geada, os dias curtos em que o sol aparece tímido entre nuvens baixas. Conhece também o peso das enchentes, das madrugadas rigorosas e das famílias que enfrentam o inverno mais com coragem do que com conforto. O frio gaúcho nunca foi apenas clima; ele é paisagem emocional.


Talvez por isso o inverno carregue essa melancolia bonita das velhas crônicas e dos filmes antigos. Ele recorda ao homem sua fragilidade. E, paradoxalmente, é dessa fragilidade que nasce certa ternura. O frio obriga as pessoas a procurarem abrigo — não apenas dentro das casas, mas umas nas outras.


Porque toda estação, no fim, revela menos sobre o tempo e mais sobre a humanidade que existe dentro dele.

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